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13/01/10 - 14h30 ENTREVISTA - Thomas Noonan - By: Paulo ManchaENTREVISTA COM O PRIMEIRO COMENTARISTA DE FUTEBOL AMERICANO DO BRASIL.
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Thomas Noonan - By: Paulo Mancha

Alguns meses atrás, durante nossas transmissões no BandSports, recebi dois e-mails de pessoas que afirmavam ter visto jogos da NFL na televisão brasileira em 1969. Eu nunca tinha ouvido falar disso e fui averiguar.

Descobri que era verdade, e que trata-se de uma história muito bacana, protagonizada por um ícone da comunicação no Brasil, o radialista Walter Silva, também conhecido como “Picapau” (Clique aqui para ver os posts anteriores sobre esse assunto).

Walter Silva foi o introdutor e primeiro entusiasta do futebol americano no Brasil, em 1969. Faleceu em fevereiro de 2009, após uma pródiga carreira de narrador e produtor musical e cultural. Sua esposa, a artista plástica Dea Silva, me recebeu recentemente e mostrou todo o arquivo de Walter, com os recortes de revistas e rosters de times da NFL que ele recebia da CBS para as partidas.

Dea também me falou que, na primeira partida transmitida, em setembro de 1969, Silva teve a humildade de pedir ajuda no ar, convocando alguma pessoa que conhecesse bem aquele esporte a entrar em contato com a TV Tupi. Isso aconteceu, e o entrevistado abaixo é essa pessoa.

O americano Thomas Noonan foi o primeiro comentarista de futebol americano no Brasil, em 1969. Hoje, ele mora em San Diego, nos Estados Unidos, e é consultor financeiro, após uma longa e bem sucedida carreira no Citibank.

Thomas Noonan me atendeu com extrema simpatia. Ele fala e escreve perfeitamente em português e, com bom humor, relembrou os bons tempos do início da bola oval no Brasil. Confira a entrevista!

Paulo Mancha: De onde você é nos Estados Unidos?
Thomas Noonan: Nasci em Iowa, mas morei em Los Angeles até ir para a Universidade de Yale, em Connecticut.

Você jogava futebol americano lá?

Sim, eu joguei na escola e também durante os meus primeiros dois anos na universidade. Eu era quarterback, porque tinha um braço bom, tanto em distância quanto em precisão.

Como veio parar no Brasil?
Depois de dois anos em Yale, decidi estudar no exterior. Escolhi um programa da Universidade de Nova York em colaboração com a Faculdade de Filosofia da USP chamado “Junior Year In Brazil.”

Foi uma boa experiência?
Aquele ano no Brasil mudou minha vida. Ele abriu meus olhos para novas experiências de vários tipos. Conheci muitas pessoas fabulosas em São Paulo, aprendi a falar Português rapidamente, porque todos os nossos cursos era na língua do país, e durante nossas férias viajamos para a muitas partes, de Porto Alegre a Belém do Pará.

E você ficou por aqui direto?
Não. Voltei a Yale por mais dois anos para me formar. Depois, acabei indo para Nova York, trabalhar no Citibank. Após 18 meses de cursos, fui designado para trabalhar no Brasil. Primeiro em Curitiba, depois em São Paulo.

Como você se tornou comentarista da TV Tupi?
Numa tarde de setembro de 1969, eu cheguei em casa e liguei a televisão. Fiquei surpreso ao deparar com um jogo da NFL entre o Green Bay Packers e Dallas Cowboys. A narração era em português e eu rapidamente compreendi que se tratava de um locutor de soccer, pois fazia frequentes referências ao futebol brasileiro. Havia comentários como: "Esse jogo é gozado!”, "Que brutalidade!","Opa! Isso vai doer!”, “Todo mundo foi em cima do coitado!".
No dia seguinte, pedi à minha secretária que telefonasse à TV Tupi. Após vários minutos, ela veio até mim dizendo que tinha o Sr. Walter Silva no telefone. Depois que eu me apresentei, Walter me perguntou, incrédulo: "Você entende desse jogo doido?" Eu respondi que tinha jogado por vários anos. Ele adorou isso e gritou: "Fantástico! Vamos almoçar! Hoje mesmo!"

E foi aí que surgiu o convite?
Sim. Durante o almoço, Walter me explicou que a TV Tupi estava recebendo as fitas da CBS por 18 meses gratuitamente, com a esperança de que uma base de fãs fosse desenvolvida durante este tempo. E então ele me convidou para acompanhá-lo no jogo do domingo seguinte.

Você lembra em que partida foi essa sua estreia na TV?
Sim, foi entre o San Francisco 49ers e Chicago Bears.

Como foi a experiência de comentar um esporte que ninguém conhecia, nem o narrador?
De início, perguntei a Walter que tipo de preparação ele fazia para cada jogo. Ele respondeu que não fazia preparação nenhuma porque não tinha noção de como era o jogo e não falava bem o inglês. Eu lhe disse que seria preciso gastar pelo menos três horas para preparar a nossa narração, dado que os espectadores brasileiros não conheciam o esporte.
Ele concordou. Desta forma, na tarde do sábado seguinte, no estúdio a TV Tupi, em Perdizes, eu e ele passamos três horas em uma sala de projeção assistindo certas partes da partida repetidamente.

Walter Silva era interessado em futebol americano?
Sim, o Walter passou a adorar o esporte. Ele assistia tanto quanto ao futebol brasileiro. Ele lançava-me perguntas sobre cada aspecto do jogo e tomava notas furiosamente.

Vocês explicavam as regras e táticas para o público?
Sim. Originalmente, nosso tempo era das 14h às 16h. Mas depois de algumas semanas, Walter convenceu a TV Tupi a nos dar um adicional de 30 minutos antes do jogo. Ele me fazia perguntas no ar e eu respondia. Eu até desenhava diagramas com aqueles “X” e “O”, que se tornaram rotina na televisão americana.

É verdade que só jogos do Dallas Cowboys eram exibidos?
Não. Não foram apenas partidas do Dallas Cowboys, embora possam ter sido as mais freqüentes. Durante os 18 meses que fizemos a programas, tivemos a maioria das equipes originais da NFL, que hoje são times da NFC: Cowboys, Giants, Eagles, Rams, 49ers, Bears, Lions, Packers, Colts, Steelers e Browns.

Vocês chegaram a mostrar o Super Bowl?
Não. Só dois Super Bowls haviam ocorrido até então. Mas nós não tivemos acesso a essas fitas.

Havia uma boa audiência?
Depois de algumas semanas, nós começamos a receber um monte de cartas de fãs. Muitas mulheres enviaram suas fotos e números de telefone! Mas eu não sei se a TV Tupi chegou a ter qualquer dado confiável quanto ao número de telespectadores que tivemos.

Quem eram seus ídolos na época?
Meus jogadores favoritos eram Don Meredith (QB) e Bob Hayes (WR), dos Cowboys, além de Bart Starr (QB) e Jim Taylor (RB), dos Packers.

Você e Walter se davam bem?

Sim, nós nos tornamos grandes amigos. Nós costumávamos almoçar juntos frequentemente.

Você ainda acompanha a NFL? Para que time torce?
Sim, eu ainda sou um grande fã. Minha lealdade muda com o tempo, dependendo dos jogadores. Por exemplo, eu sempre fui um grande fã de Brett Favre e Ricky Williams. Favre está agora com os Vikings, e Williams, com os Dolphins. No momento, estes são os meus dois times favoritos.

Qual seu palpite para o Super Bowl deste ano?
As duas melhores equipes deste ano são os Colts e os Saints. Eles seriam a melhor aposta para o Super Bowl.

Que mensagem você deixa para os fãs brasileiros?

Façam tudo o que puderem para ver uma partida ao vivo, no estádio. Mesmo que não seja da NFL, você ficará surpreso com a rapidez do jogo e com a dureza dos tackles!




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